Terça-feira, 07 de Agosto de 2012

Está um calor infernal! O bafo quente que sai de entre as calçadas é insuportável! Nestes dias, a sensação é que estamos a andar em cima de brasas acesas. O suor desce bradando pelas nossas testas. A energia eléctrica dja ka bá bá, apesar dos avultados investimentos feitos na produção de energias limpas (painéis solares), que devem estar a produzir energia em barda nesta época de verão, pelo que este corte deve se tratar de uma pequena avaria, como já é hábito. O ar torna-se irrespirável! O barulho dos geradores é perturbador. Apetece-me uma strela em pleno dia, sob este sol abrasador e é isto que vou fazer. Paro na primeira esplanada que surge á minha frente. A secura é obscena, a minha garganta brada por uma bebida made in Praia Negra para matar a sede. Arrasto uma cadeira e sento-me, mas antes de fazer o meu pedido, sou surpreendido com um café daquele bom! A intensidade do seu perfume deixa-me a beira de cometer uma grande loucura (trocar a strela por um café bem quente). O cheiro deste grão de café torrado e a intensidade da sua fragrância revelam-me a sua frescura. A cor preta e lisa que chega a brilhar, e o seu aspecto estaladiço deste café bem torrado, deixam-me com água na boca. Desejo loucamente ter o gosto deste café na minha boca. Mas enquanto não decido, vou inalando os vapores que exalam desta bebida quente. Não consigo controlar esta minha vontade, apetece-me este aroma que me faz lembrar o odor á chocolate quando é bem preparado, desejável e sem qualquer defeito. Contudo, por azar posso ter de degustar um café com sabor á resina, remédio, especiarias queimado, cinzas, mofo, rançoso, borracha, ou simplesmente de tabaco queimado, quando os grãos não são bem preparados, o pó mal apurado, tornando-o pouco o nada desejável. Mas este café que está na minha dianteira, está com um odor muito forte, falta-me apenas decidir, certamente que ele não me vai desiludir. Confesso que, apesar deste calor infernal, a minha vontade é de apoderar deste café, deixar este líquido percorrer todos os cantos da minha boca e sentir o seu verdadeiro grau de acidez. Está com um aspecto amargo, pois quanto mais escuro, mais amargo é o café e este tem uma cor mestiça. A combinação das sensações de gosto doce, salgado, amargo e ácido com os aromas de chocolate ou caramelo ou cereal torrado que me arrastam para esta loucura. O corpo deste café é bastante desejável, o seu aspecto oleoso, a sua viscosidade e esta aparência encorpada demonstram que esta bebida é forte e concentrada, que certamente produzirá uma sensação agradável na boca. Os cafés não param. São bastantes solicitados. Sendo café crioulo (grãos de ilhas diferentes e cada um com características peculiares), certamente que são de altíssima qualidade. O aspecto, o aroma e o preço de um café tornam este produto bastante convidativo e muito comercializado. A produção de café nas nossas ilhas tem aumentado de forma assustadora. A oferta é de longe superior a procura. A concorrência é tanta, que muitas das vezes forçam-te a beber um café, mesmo que seja fiado! Antes de decidir, o café senta na minha mesa, fita-me com um olhar sensual, um convite a um gole, não aguento, pego na chávena e decido degustar este café, que custa apenas 50 paus! Por um lado fico satisfeito, o produto é de qualidade, o serviço é personalizado, o cliente fica satisfeito, um grande passo á fidelização. Mas por outro, sinto uma sensação de frustração ao pensar na afronta desta moça. Quantos cafés, ela tem de servir por dia, para juntar os recursos suficientes e dar de comer as suas crias? Quantos serão necessários para pagar as propinas mensais? Quantos bules, ela vai ter de ferver para comprar aquele telemóvel, o perfume para não perder a fragrância ou aquele vestido que a tem roubado o sono? Fico apreensivo, bastante preocupado com a situação destas criaturas, que vão ter de continuar a dar café, porque os governantes não têm capacidade para criar postos de trabalho e ainda são os primeiros a retirar os grãos de café, ainda verdes, a pingar leite, dos regaços das mães.



publicado por Helder Fortes às 17:21
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