Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Há bem pouco tempo fomos convidados à participar numa Tertúlia que teve lugar no Convento de São Francisco, para discutirmos a Cidade Velha, uma forma de cada um dar o seu contributo para o desenvolvimento sustentável daquele espaço. Os temas propostos (Património, Cultura, Turismo, Identidade, Língua…) demonstraram ser demasiadas para um debate de hora e meia, pelo que ficaram muitas coisas por dizer. Assim, decidimos elaborar este artigo, onde preconizamos responder algumas questões, nomeadamente sobre a actividade turística do nosso Património da Humanidade.

Posto isto, com este pequeno artigo, tencionamos alertar as autoridades locais, regionais e nacionais pela premente necessidade de começarmos a apostar num turismo mais responsável, um turismo duradouro, em suma, um turismo sustentável, de forma a garantirmos a satisfação das necessidades económicas da presente geração sem em hipótese alguma comprometer a satisfação das necessidades básicas das futuras gerações. Alertamos aos actores que para darmos continuidade a espécie, não basta a reprodução, mas sim, é necessário criarmos e preservarmos um ambiente saudável onde as gerações futuras possam gozar das mesmas condições que temos vindo a usufruir até agora. Não podemos em momento algum, esquecer que a terra não é nossa, esta deve ser encarada como um empréstimo que os nossos netos nos concederam, assim, a mesma deve ser entregue a eles nas mesmas condições que a recebemos.

Preconizamos expor a carência de se estabelecer algumas orientações que legitimem o planeamento, implementação e desenvolvimento de um turismo rural sustentável no município de Ribeira Grande de Santiago, mais conhecido por Cidade Velha, de forma a se alcançar um intercâmbio entre os três pilares fundamentais da sustentabilidade: conservação ambiental e desenvolvimento económico aliados ao respeito pelos aspectos sócio-culturais de cada localidade. É certo que o desenvolvimento do turismo em espaços rurais tem vindo a despertar um certo interesse por parte das autoridades, dado que por um lado impede o crescimento do fenómeno migratório desses espaços rurais para os grandes centros urbanos, explicado pela procura de melhores condições económicas, e que por outro, impulsionado pelas novas tendências do turismo, as vivências dessas localidades passam a ser valorizadas, os hábitos e os costumes dessas localidades transformam em atracções turísticas, criando oportunidades para implementação de pequenas e médias empresas que visam melhorar substancialmente as condições de vida dessas populações. Contudo, chamamos a atenção da imprescindibilidade de uma adequada integração da população local (gentes nativos da Cidade Velha) na definição do tipo de turismo, no seu planeamento, e na sua implementação, desenvolvimento e consolidação, ou seja, os anfitriãs devem ser os proprietários das actividades a serem implementadas na região, só assim será possível assegurar verdadeiros guardiãs, autênticos defensores e conservadores do meio ambiente. Colocando os destinos do turismo nas mãos da população local, é garantir que os benefícios das actividades desenvolvidas revertem-se obrigatoriamente, em parte ou na sua totalidade para a população local, de forma a criar um sistema económico fechado, mais forte e mais atractiva.

O Turismo em Espaços Rurais (TER) é um conceito muito actual e ao mesmo tempo muito pouco conhecido em Cabo Verde, devido a quase inexistência de projectos nesta área, desta forma, justifica-se esta abordagem relativo ao desenvolvimento do turismo rural na Cidade Velha, onde se preconiza demonstrar a relevância de uma relação harmónica entre exploração económica com respeito ao meio ambiente. O nosso objectivo é mostrar a importância de um turismo rural para o município de Ribeira Grande – Cidade Velha, onde se pode enumerar algumas das actividades alternativas que visam valorizar os produtos e serviços existentes nos espaços rurais. É de salientar que as actividades alternativas e complementares podem actuar de forma directa ou indirecta na melhoria da qualidade de vida dos pequenos produtores rurais. Entendemos evidenciar o interesse em desenvolver um vínculo entre o conceito de desenvolvimento sustentável com os conceitos de educação e preservação ambiental, valorizando desta forma o ambiente natural e a cultura local, redescobrindo as origens e as raízes desses povos, permitindo desta forma a integração do visitante com o meio rural.

Para um futuro melhor, não podemos esquecer o passado, pois, torna-se quase que um imperativo fazer um enquadramento histórico da Cidade Velha, para apercebermos qual a verdadeira necessidade de ser implementado este tipo de turismos nestas localidades tão vulneráveis. Ela é a mais antiga cidade do arquipélago, berço da civilização cabo-verdiana, primeira cidade dos Portugueses em África. Esta majestosa ribeira denominada de Ribeira Grande, conhecida como Cidade Velha, recentemente elevada à Património da Humanidade pela UNESCO, foi descoberta e colonizada no século XV e durante três séculos foi o principal entreposto comercial das ilhas até a sua queda no final do século XVIII. Este recôndito lugar fica localizada na foz de um vale profundo e íngreme, cortado no planalto vulcânico da costa sul da ilha de Santiago e na sua frente abre-se aquele magnífico mar azul, mar que inspira a musica e a poesia, mar que iluminou aquelas naus até este paraíso do Atlântico, mar que trouxe novos modos sociais e culturais, mar de pescadores, de marinheiros, mergulhadores e estivadores, mar de sustento, mar que fez fundir o branco e os escravos para dar origem ao mulato, mar de esperança, mar que nos separa e que nos une com os povos longínquos, mar por onde os cabo-verdianos se aventuram em terras por nunca antes pisadas em busca de uma vida melhor, mar amigo, mar que leva e traz de volta os nossos amores, mar de serenata que embala os sonhos dos filhos desta ilhas.

Cidade Velha é uma agradável cidade, facilmente acessível a partir de Praia, a capital do arquipélago, que fica a escassos 12 km. Em meio de paisagens lunares, secas pelo vento e esquecidas pela chuva, no meio daquele panorama lunar, entre aquelas ribeiras desérticas, campos estéreis, montes áridos, acompanhadas por aquele azul cristalino, embaladas por aquelas ondas, embriagadas com aquelas espumas brancas, uma paisagem impar acarinhada pelo mar que abre os braços diante de nós, um mar de consolação, mas também de mortificação. Deslumbrado com esta paisagem esplêndida, chega-se a este oásis amparado pelas imponentes e escarpadas montanhas que se erguem a sua volta, brindando os visitantes com um cenário surpreendente e proporcionando-os uma vista única. Esta grande ribeira verdejante, torrente de água doce que originou o nome de Ribeira Grande, condições naturais que tiveram um papel decisivo na instalação dos homens neste local em meados do século XV, mas com as secas cíclicas que teimosamente tem vindo a assolar o arquipélago, esta ribeira encontra-se geralmente quase seco, mas no seu leito ainda pode-se encontrar nascentes e poços viçosos que enchem-se durante a estação chuvosa. Entre as pequenas casas da cidade, pode-se ainda testemunhar a forte presença militar e a imponente presença da igreja na consolidação e desenvolvimento desta pequena cidade, permitindo facilmente ao visitante imaginar o poder deste lugar vigoroso e os interesses comerciais da sua defesa.

Impulsionada pela sua privilegiada situação geo-estratégica, mesmo ao lado do continente Africano, entre o continente Europeu, as Américas e o Oriente, prematuramente a cidade velha foi sujeito a desempenhar um papel de placa giratória no cenário das trocas comerciais, no tráfego de escravos e no abastecimento dos navios, factores que contribuíram para que a Ribeira Grande se transformasse, rapidamente, num centro comercial de certa importância e daí, em 1533, ter tido ganho o estatuto de Cidade. A cidade da Ribeira Grande localizada na foz de uma grande e estreita ribeira, tinha por excelência a abundância de um recurso raro e escasso por estas ilhas (água), proporcionando todas as condições para a prática da agricultura/pecuária e abastecimento dos navios, com água potável e produtos frescos. Contudo, com o crescimento da população, esta pequena localidade tornou-se num espaço de doenças negras que, assolou a sua população. Além de doentia era, como ficou provada com os vários ataques de piratas, uma presa fácil de piratas que, desembarcando em outros portos da ilha, surpreendiam a cidade a partir das partes altas que a ladeiam. A queda de Ribeira Grande, em grande parte, condenada pelo seu sítio desfavorável levou a coroa a impor, por alvará de 14 de Agosto de 1652, a transferência da capital para a vila de Santa Maria da Praia. Hoje a Cidade Velha é, um ponto turístico por excelência. Os seus monumentos históricos fazem dela um lugar aprazível, principalmente para aqueles que se interessam pela história de um povo surgido do cruzamento de várias raças.

O desenvolvimento desta cidade pacata pode ser vista em diferentes acontecimentos históricos, por exemplo, a rua que liga o porto à praça do Pelourinho, situado mesmo na foz da ribeira, na parte baixa, na marginal daquela pequena baia, foi o centro de fixação no século XV e é ainda o centro da actual cidade. O segundo acontecimento, mais precisamente no século seguinte estende nas margens da ribeira (Rua Banana e Rua Carrera). Ainda no mesmo século, é o planalto que circula todo o vale, a 120 metros acima do mar, que foi envolvido pela majestosa fortaleza de São Felipe, ligado ao centro da cidade pela Rua Direita. Finalmente, no século XVII, foi construído a via de São Pedro e, em seguida, os de São Brás e São Sebastião são edificadas em plataformas com vista para o mar de cerca de 20 metros em ambos os lados da baía. A “zona base”, localizada no interior do vale, foi estruturada em dois eixos principais: o eixo longitudinal SO/NE que liga o porto à nascente do rio, após o leito da ribeira, e o eixo transversal que nasce na praça do Pelourinho, âncora e centro problemático da cidade, que segue a costa. Este eixo cruza o rio e atravessa a via de São Brás. A cidade "alta", situada no sopé do planalto, desenvolveu-se ao longo de um único eixo SO/NE praticamente ligando a catedral ao Forte de São Felipe. Cada um destes sectores tem mantido o traçado urbano do período histórico em que cresceu, tal como os nomes. Assim, podemos encontrar uma vila de planeamento medieval marcada pela centralidade da praça do Pelourinho, um ordenamento que posteriormente originou fusos rectilíneos e, finalmente, uma malha moderna de ruas orthonormais na área de São Sebastião.

Com as secas cíclicas que durante muitos anos fustigaram o arquipélago, os espaços rurais foram trocados pelos grandes centros urbanos, como consequência deste fenómeno originou uma profunda e desordenada ocupação das cidades, porém, nos dias de hoje o processo tende-se a inverter dado as novas motivações, necessidades e interesses dos novos turistas que procuram um maior contacto com a natureza e consumo de produtos endógenos. No entanto esta inversão deve ser feita em harmonia com um planeamento preliminar, que tende a identificar as novas alternativas e ou oportunidades de negócios que viabilizem a sustentabilidade dos recursos naturais, de forma a garantir a fixação e permanência das actuais e futuras gerações, oferecendo-lhes um nível de vida aceitável nestes espaços. Deste modo, vê-se o turismo em espaços rurais como uma actividade alternativa e uma mais valia no aumento dos rendimentos “per-capita”, diversificando a oferta e um melhor aproveitamento das potencialidades desses espaços. O TER apresenta características próprias, pouco tendo em comum com as modalidades convencionais de turismo e tem como principais objectivos: diversificar a oferta turística na localidade de Cidade Velha, de forma a possibilitar aos visitantes (nacionais e internacionais) oportunidades de integrações nas práticas, hábitos e costumes culturais e gastronómicas, usufruindo da hospitalidade (morabeza) da população local; estimular e revitalizar o sistema económico dessa localidade, apostando na valorização e produção de produtos endógenos, recorrendo aos recursos naturais e culturais da região; contribuir para a diversificação das actividades económicas, sustentado pela agricultura, através da dinamização de um conjunto de outras actividades como o artesanato, actividades de animação cultural, produção e venda de produtos tradicionais, melhoria dos serviços de transporte, e aperfeiçoamento da qualidade de outros serviços do sistema turístico.

O conhecimento abrangente do espaço, os aspectos histórico-culturais, socio-económicos, politico e ambientais permite recolher elementos de suporte para um adequado planeamento, implementação e desenvolvimento do turismo na Cidade Velha, proporcionando assim, uma melhoria da qualidade de vida (justiça social e direito à condições dignas de vida) para a população local. Nesta óptica, torna-se imprescindível realizar um estudo e levantamento pormenorizado do meio físico, incentivando sempre uma consciência ambiental, todavia, é inadmissível o desenvolvimento de actividades turísticas na Cidade Velha, sem previamente catalogar dados que facilitem a interpretação da paisagem, para que se possa minimizar a ocorrência de futuros impactes ambientais negativos. A Cidade Velha é o berço de todos os cabo-verdianos, é um património de todos os nacionais e não só, recentemente foi considerada património da humanidade pela UNESCO, assim, todo o espaço físico desta localidade e o seu meio envolvente, os aspectos naturais (os cutelos, os vales, as ribeiras, o mar, a flora e a fauna), como também os aspectos resultantes de acções antrópicas (os monumentos históricos construídos), todos estes elementos fazem parte de um produto gratuito, a disposição de todos que tencionam desfrutar das maravilhas deste lugar impar. Existem coisas que não tem preços, a Cidade Velha é uma delas, a vista daquela extensa ribeira que perde no azul do mar é um exemplo, podíamos mencionar tantas outras, todavia temos que desfrutar destas localidades de forma a não colocar em risco a sustentabilidade das mesma, evitando a sobre exploração e a liquidação dos seus recursos.

Assim, a cidade de Ribeira Grande tem todas as condições para a implementação do TER, que figura-se como actividade turística desenvolvida em espaços rurais, integrando as actividades praticadas nesses ambientes, como a agricultura e pecuária à actividade turística, surgindo como alternativa para proprietários rurais no actual figurino económico emergente no país – prestação de serviços turísticos. Como sabem pois as ilhas são o segundo destino turístico mais importante a seguir às grandes cidades históricas, Cidade Velha consegue juntar num único espaço, características/potencialidades susceptíveis de transforma-la num dos mais belos destinos turísticos. Aliado ao facto de ficar situada numa ilha e de privilegiar dos aspectos históricos, ela ainda possui as características naturais de elevado interesse turístico. Assim o TER, este tipo de turismo que pode ser visto como um produto completo e diversificado que integra as componentes de alojamento, restauração, animação e lazer, baseado no acolhimento hospitaleiro e personalizado e nas tradições mais genuínas da gastronomia, artesanato, cultura popular, arquitectura, folclore e da sua história, mostra ser a melhor aposta para o desenvolvimento socio-económico desta localidade.

Lembremos que o território é considerado como um espaço físico, geograficamente definido, geralmente contínuo, compreendendo cidades e campos, caracterizado por critérios multidimensionais, como ambiente, economia, sociedade, cultura, política e instituições, e uma população com grupos sociais relativamente distintos, que se relacionam interna e externamente por meio de processos específicos, onde se pode distinguir um ou mais elementos que indicam identidade e coesão social, cultural e territorial. Nos territórios rurais, tais elementos manifestam-se, predominantemente, pelo uso da terra nas práticas agrícolas e pecuárias, e na noção de ruralidade, ou seja, no valor que a sociedade moderna dá ao espaço rural, abrange as características mais gerais do meio rural: a qualidade do espaço, a paisagem, a biodiversidade, a cultura, o estilo e modo de vida, identificadas pela actividade agrícola, a lógica familiar, a cultura comunitária, a identificação com os ciclos da natureza. A responsabilidade com a produção agropecuária identifica-se com a ruralidade, uma ligação inerente a exploração da terra. Desta forma, mesmo que as práticas eminentemente agrícolas não estejam presentes em escala comercial, a responsabilidade com a produção agropecuária pode ser representado pelas práticas sociais e de trabalho, pelo ambiente, pelos costumes e tradições, pelos aspectos arquitectónicos, pelo artesanato, pelo modo de vida considerado típico de cada localidade rural. A prestação de serviços relacionados à hospitalidade em ambiente rural faz com que as características rurais passem a ser entendidas de outra forma que não apenas ligadas ao cultivo da terra. Assim, o quotidiano campestre, a tranquilidade dos espaços rurais, a cultura de subsistência, as manifestações culturais e a própria paisagem passam a ser consideradas importantes componentes do produto turístico rural. O TER, além do comprometimento com as actividades agropecuárias, caracteriza-se pela valorização do património cultural e natural como elementos da oferta turística no meio rural. Os empreendedores, na definição de seus produtos de Turismo Rural, devem contemplar com a maior autenticidade possível os factores culturais, por meio do resgate das manifestações e práticas regionais (como o folclore, os trabalhos manuais, a gastronomia), e primar pela conservação do ambiente natural.

O TER inclui três tipos diferentes de turismo: Turismo de Habitação, Turismo Rural e Agroturismo. O seu conceito geral é preservar as casas, a tradição, a cultura, a arquitectura e os modos de vida tradicionais. Proporciona alojamento para os turistas nas regiões rurais. O elemento significativo deste tipo de turismo é que as famílias ainda vivem nas casas, dando ao turista uma visão mais profunda dos costumes e modos de vida locais. Os alojamentos integram-se nos estilos arquitectónicos típicos locais, e os proprietários devem estar disponíveis em dar vida aos espaços, contando a história local, bem como a da casa; e dar informações, com entusiasmo, sobre a gastronomia local, festas, artesanato, tradições e locais de interesse próximos. O Turismo de Habitação foi o primeiro dos três géneros de alojamento a ser introduzido seguindo-se Turismo Rural e Agroturismo. Quanto ao Agroturismo (Quintas e Herdades), o seu maior objectivo é a preservação da agricultura e baseia-se na recuperação de casas localizadas em quintas. O alojamento turístico está inserido numa exploração agrícola e caracteriza-se pela participação dos hóspedes nas actividades da Quinta. Existe, ainda, o conceito de Turismo de Aldeia que é considerado uma nova fórmula de actividade e animação turística do meio rural, que não obriga a presença do proprietário. Mas também aqui poderá participar na vida quotidiana das nossas aldeias mais típicas.

Não podemos de forma alguma, pensar no TER desvinculado do desenvolvimento sustentável, que segundo o Relatório Brundtland “Nosso Futuro Comum”, publicado em 1987, no qual desenvolvimento sustentável é concebido como “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. O desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração actual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades, significa possibilitar que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e económico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra e preservando as espécies e os habitats naturais. Cada vez mais, os destinos e as operações de turismo estão apoiando e seguindo o "turismo responsável" como um caminho para o turismo sustentável. Turismo responsável e sustentável do turismo tem um objectivo idêntico, o de desenvolvimento sustentável. Os pilares de um turismo responsável, portanto, as mesmas que as do turismo sustentável: a integridade ambiental, justiça social e desenvolvimento económico. A principal diferença entre os dois é que, de um turismo responsável, os indivíduos, organizações e empresas são convidados a assumir a responsabilidade por suas acções e os impactos de suas acções. Em suma o TER consiste no conjunto de actividades, serviços de alojamento e animação a turistas, em empreendimentos de natureza familiar, realizados e prestados mediante remuneração, em zonas rurais e fundamentada nos princípios do desenvolvimento sustentável, do turismo sustentável e do turismo responsável (Wikipédia).

É importante, promover a actividade turística de forma harmoniosa e sustentada, no respeito pelas diferenças que caracterizam cada região e pelos requisitos de qualidade e de comodidade exigidos pelos visitantes que o procura. Temos que estar atentos nas desigualdades sociais e económicas que o turismo pode causar, sabemos que o sistema capitalista privilegia as classes dominantes oferecendo vantagens aos grandes produtores rurais, que vão desde facilidades de financiamentos até o acesso à tecnologias de ponta apoiando sua produção. Para defender os pequenos produtores, é importante apostar no desenvolvimento de actividades de pequena escala (agroturismo) e diversificar o máximo possível as actividades turísticas, baseadas no conceito de sustentabilidade visando proporcionar melhores condições de vida no campo.

Como já tivemos oportunidade de abordar, o TER apresenta uma diversidade enorme de modalidades, não estando limitado a um só tipo de actividade e também não deve ser visto como substituto da produção tradicional no campo (agricultura), mas sim servir como um incremento de opções produtivas, complementando a renda dentro da agricultura familiar. Desta forma surge novas actividades dentro das propriedades agrícolas, que geram ocupações complementares às actividades agrícolas, as quais fazem parte do quotidiano rural, em menor ou maior intensidade, devem ser entendidas como parte integrante de um processo de incorporação de serviços turísticos aos produtos agrícolas e bens não materiais existentes nos espaços rurais (paisagem, ecossistema e biodiversidade, etc.). Realçamos aqui, alguns exemplos de actividades associadas ao TER que podem ser desenvolvidas na Cidade Velha: desde o aproveitamento de casas tradicionais para a construção de alojamentos turísticos, aluguer de botes para pesca desportiva e passeios; restaurantes típicos, vendas directas do produtor, artesanato tradicional e outras actividades de lazer associadas à recuperação de um estilo de vida dos moradores do campo.

O turismo no espaço rural (TER) surge como uma actividade complementar, que pode originar transformações nas relações de produção económica no campo, introduzindo desta forma o sector de prestação de serviços neste espaço. Conceptualmente deve-se entender que os locais para a exploração turística apresentam um contexto rico em tradição cultural e atractivos naturais. O desenvolvimento de turismo rural relacionada com a educação ambiental, visa criar um elo de ligação entre estas duas temáticas actuais que caso forem bem planeadas permite-nos atingir um dos objectivos do milénio, desenvolvimento económico aliado à preservação ambiental. Contudo, um dos aspectos mais importante a ter em conta é o conhecimento profundo de todos os elementos que fazem parte da Cidade Velha (geomorfologia, os recursos hídricos, o solo, a flora e fauna, o clima e a acção do homem), evidenciando as suas inter relações dentro de uma cadeia contínua de processos de troca de energia interna a este sistema. Portanto, o método utilizado baseia-se fundamentalmente numa visão global, evitando o favorecimento pontual de um sector ou de outro em detrimento do sistema no seu todo, criando uma unidade que integre as várias categorias de estudo partindo do conceito de educação ambiental como suporte para gestão do plano turístico resguardando os atractivos naturais e promovendo uma consciência ambiental. A visão adoptada se confirma devido ao facto que só se preserva o que se conhece, então quando o turista passa a conhecer o espaço cria-se uma identidade com o meio ambiente promovendo sua valorização.

O objectivo é incutir o conceito de desenvolvimento sustentável no seio das populações locais e dos visitantes da Cidade Velha, idealizado pela necessidade da existência de uma forte interacção entre a educação ambiental com o desenvolvimento das actividades turísticas, conhecendo na integra os elementos que constituem o espaço e consciencializar da forma de como as acções antrópicas (intervenções humanas) interferem nos processos naturais do ambiente, causando o seu desequilíbrio. Temos vindo a testemunhar a ocorrência de uma agressão gradual e sistemática ao nosso ambiente natural, isto causado pela acção insensata do homem resultante da alucinante procura do retorno dos investimentos em períodos relativamente muito curtos, sem se preocupar em realizar um levantamento dos impactes negativos que possam gerar da exploração económica. Nunca é demais alertar aos investidores, da necessidade de investir no turismo rural fundamentado na conservação ambiental e como suporte do projecto. Partindo do pressuposto que a paisagem é fundamental para a elaboração de um projecto de TER, a Cidade Velha apresenta uma potencialidade para o desenvolvimento e a implementação do turismo rural. Baseado nas premissas definidas nos parágrafos anteriores o espaço rural do município de Ribeira Grande (Cidade Velha) se manifesta ideal para o desenvolvimento deste tipo de turismo, pois apresenta um perfil adequado para implantação de um projecto de turismo rural e de ecoturismo.

A paisagem do espaço rural no município de Ribeira Grande de Santiago (Cidade Velha) é bem diversificada, apresentando uma variedade na estrutura fundiária, possibilitando assim o desenvolvimento de actividades turísticas nas suas várias modalidades de actuação como: agroturismo; ecoturismo; rotas agrícolas; turismo verde; aluguer de botes para pesca desportiva e passeios; casas tradicionais como alojamento; entre outras tipologias. A presença do mar na região é um importante atractivo e um elemento que propicia o desenvolvimento de inúmeras actividades de lazer principalmente voltadas aos desportos náuticos, demonstrando a vocação da região para a fixação do turismo. Outro importante factor a ser destacado, e que justifica, é a diversidade de espécies, principalmente as endémicas, encontradas e o tipo de relevo onde se denota uma riqueza natural típica da vegetação de ribeiras com suas exuberantes veredas e a presença de algumas quedas de água na época das chuvas. A Ribeira Grande apresenta ecossistemas diferentes: o do vale, e o dos penhascos rochosos e do planalto. O vale permitiu a aclimatação de muitas plantas trazidas da África ou das Américas. A flora do vale é constituída na sua maioria parte por espécies introduzidas que estão actualmente adaptadas ao clima local, incluindo as grandes árvores frutíferas, como manga, caju (Anacardium ocidentalis L.), o coqueiro (Cocos nucifera L.), o tamarindo (Phoenix dactilifera), os grandes herbáceos como a papaeira e a bananeira. As árvores são representadas por acácias, como Parkinsonia (Parkinsonia aculeata), Acácia-americana (Prosopis juliflora), a figueira (Ficus sur), ou a gonakiera (Acacia nilotica). Baseado na riqueza natural da cidade, o turismo rural contribuirá para a preservação ambiental, apoiando no conceito de desenvolvimento sustentável, sendo esta uma necessidade urgente para este espaço, pois ocorre hoje uma degradação gradual no meio ambiente desta localidade. Deve-se também salientar que o mesmo proporcionará uma recuperação dos valores culturais, valorizando e preservando assim os costumes e tradições locais, retomando aspectos inerentes ao quotidiano desta comunidade. Além deste resgate, o turismo incentivará a conservação do património arquitectónico (a Fortaleza programada durante o reinado de Filipe 1º para combater os frequentes ataques de piratas, a sua construção foi iniciada em 1587, logo após o atentado do pirata Inglês Francis Drake em 1585; a Catedral iniciada em 1556 por iniciativa de Frei Francisco da Cruz, 3º Bispo, a sua construção deverá terminar em 1705, devido à sua amplificação (60 metros); Igreja de Nossa Senhora do Rosário o mais antigo prédio da Ribeira Grande ainda de pé, constitui um dos raros exemplos de arquitectura gótica na África sub-saariana, a igreja, cujo corpo principal foi construído a partir de 1495, nunca perdeu a sua vocação; igreja e Convento de São Francisco a construção do Mosteiro e da Igreja de São Francisco começou em 1657; Palácio episcopal, este imponente edifício, erguido em 1574, desapareceu completamente e pequenas habitações substituíram o edifício; Igreja do Hospital de Nossa Senhora da Misericórdia construída a partir de 1555, apenas resta a sua torre de sino sem telhado), isto com o intuito de criar referências que sirvam de pontos de interesse turísticos.

O contacto com a natureza e a cultura local de um espaço rural é vista como um refugio para os turistas, pois seu maior desejo é justamente sair da realidade habitual da vida quotidiana dos grandes centros urbanos motivados por uma nova opção de lazer, proporcionando a interacção com o “modus vivendi” rural, incorporando elementos carregados de uma simplicidade característico a este meio, inserida em um contexto de uma paisagem cénica remetendo o indivíduo a exercer um olhar contemplativo. Nos fins de semana mais propriamente, temos assistido o aumento do número de pessoas que abstraem dos ambientes poluídos (atmosférica, sonora e visual), o caso da cidade da Praia, e escolhem lugares com cores mais alegres, com cheiros naturais dos solos dos campos, os sons de outros cantos que encantam, histórias de outra gentes com os seus valores, cultura e experiências de vida e a gente simples, humilde, espontânea, acolhedora, atenta, disponível, com outro tempo e outros ritmos. A participação e o interesse da comunidade e do poder público em desenvolver o turismo na região é outro factor que deve ser evidenciado, sendo um dos pontos mais favoráveis para o surgimento do turismos rural, pois no concelho da Ribeira Grande a vontade de contribuir para o desenvolvimento da economia aliado à preservação ambiental se encontra presente em todas as camadas sociais, possibilitando viabilizar o projecto com um toque popular e governamental.

Partindo das primeiras análises, constatou-se que o turismo rural é uma modalidade relativamente nova e muito pouco explorada a nível de Cabo Verde, mas que se demonstra com grande potencial, pois propicia a redescoberta das raízes culturais, valoriza e preserva o meio ambiente, isto estando o seu desenvolvimento apoiado num planeamento que tenha como prioridade o desenvolvimento sustentável.

Com o levantamento dos elementos necessários para a elaboração deste artigo tornou-se possível conhecer as vantagens e desvantagens inerentes a implementação do TER. Qualquer actividade turística, directamente ou indirectamente por um lado trás vantagens e por outro mostra as fragilidades do sector, toda a regra tem excepção, contudo, neste caso o TER não é excepção a regra. Passamos as enumerar algumas vantagens: turismo como uma actividade alternativa aos espaços rurais e que visa a conservação ambiental; actividade que propicia o recuperação das tradições culturais fortalecendo a identidade local; turismo rural como estratégia para o aumento das rendas para a população local; turismo como fonte de geração de empregos ampliando o mercado de trabalho e como forma de fixar as pessoas no meio rural e em seu ambiente de origem; incremento de produtos e o aumento da sua comercialização havendo uma agregação de valores e revitalização do espaço rural visando a melhoria da qualidade de vida. No entanto ficou alusiva que a falta de planeamento do turismo gera impactes negativos com efeitos directos, tais como: degradação e descaracterização do espaço rural e algum desagrado social; escassez de informações referentes a experiências de projectos já implementados dificultando o planeamento e gestão das actividades turísticas no meio rural; mão-de-obra desadequada para a prestação dos serviços com a nova demanda gerada pela actividade turística; insuficiência de normas e regulamentação para o exercício da gestão do turismo no espaço rural; dificuldade do produtor rural em compreender os mecanismos administrativos do sector de serviços no ambiente rural e interno a sua propriedade.

A implementação de um projecto de turismo rural, principalmente em uma área que apresente potencialidades para esta actividade é viável, quando se procura controlar os impactes através de um planeamento adequado. Assim o município de Ribeira Grande se enquadra perfeitamente neste tipo de turismo.



publicado por Helder Fortes às 18:44
Bom dia :)

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João Sá a 19 de Junho de 2012 às 04:04

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